Encontro promovido pela CBARI discutiu materialidade financeira, riscos e oportunidades, efeitos financeiros, controles internos, conectividade com as demonstrações financeiras e outros desafios da implementação das normas
O GT Empresas Pioneiras da Comissão Brasileira de Acompanhamento do Relato Integrado (CBARI) realizou, em 18 de agosto, uma sessão especial com o Prof. Eduardo Flores para discutir a aplicação prática das IFRS S1 e S2, incorporadas no Brasil por meio dos pronunciamentos CBPS 01 e 02.
O encontro teve como ponto de partida o recém-publicado Manual Prático para Elaboração de Relatórios de Sustentabilidade, Segundo as IFRS S1 e S2, de autoria de Eduardo Flores. O livro está disponível em diversas livrarias e canais de venda online e, após profundidade da discussão proporcionada pelo encontro, reforçamos sua recomendação como leitura essencial para profissionais que atuam com reporte corporativo. Mais de 150 perguntas foram encaminhadas previamente pelos inscritos. Para tornar a discussão possível nas duas horas de reunião, as questões foram consolidadas em perguntas-chave e organizadas seguindo a estrutura dos seis capítulos do livro.
Na abertura, Flores explicou que uma das motivações para a elaboração do Manual foi justamente a necessidade de materiais capazes de aproximar os profissionais dos conceitos e fundamentos necessários para a leitura e aplicação das normas. Ressaltou também que o tema permanece em desenvolvimento e que o livro deve ser entendido como um ponto de partida para a compreensão e aplicação prática das IFRS S1 e S2, e não como uma interpretação definitiva de um campo que continua evoluindo.
Materialidade exige julgamento, não apenas quantificação
A materialidade financeira foi um dos temas que mais geraram dúvidas entre os participantes. A discussão procurou afastar a ideia de que a materialidade possa ser reduzida a uma régua quantitativa ou a um percentual aplicado sobre determinada grandeza financeira.
Durante o debate, foi ressaltada a importância de considerar conjuntamente fatores como magnitude, probabilidade, horizonte temporal e, especialmente, a perspectiva dos usuários primários da informação. Uma informação pode ser relevante para a tomada de decisão mesmo quando o valor envolvido não ultrapassa determinada linha quantitativa. O contexto e a natureza da informação também podem ser determinantes para a conclusão sobre materialidade.
Outro ponto discutido foi a relação entre a entidade que reporta e a cadeia de valor. O perímetro da entidade que reporta deve estar alinhado ao das demonstrações financeiras consolidadas, enquanto a cadeia de valor ajuda a identificar de onde podem surgir riscos e oportunidades capazes de afetar essa entidade. A distinção é particularmente importante em grupos empresariais com controladas que apresentam perfis de exposição muito diferentes ou em situações nas quais riscos relevantes se originam em fornecedores, clientes ou outras relações da cadeia de valor.
Matriz de riscos é ponto de partida, não produto final
A reunião também abordou como utilizar os processos corporativos de gestão de riscos na implementação das IFRS S1 e S2.
Flores destacou uma distinção fundamental: o IFRS S1 não é uma norma de gestão de riscos, mas uma norma de divulgação de informações sobre riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade. Dessa forma, a matriz corporativa de riscos pode servir como importante ponto de partida, desde que os riscos estejam adequadamente identificados e documentados e sejam posteriormente avaliados sob a perspectiva da materialidade financeira e dos requisitos de divulgação.
A discussão reforçou, portanto, que a elaboração do relatório não deve criar uma gestão de riscos paralela. Ao contrário, a implementação das normas tende a exigir maior integração entre gestão de riscos, estratégia, finanças, controladoria, sustentabilidade e demais áreas responsáveis pelas decisões e informações da companhia.
Clima: da narrativa aos efeitos financeiros
Ao tratar do IFRS S2, um dos principais pontos discutidos foi a passagem da descrição de um risco climático para sua conexão com efeitos financeiros atuais e esperados.
Nem sempre será possível produzir uma quantificação robusta, especialmente quando há elevada incerteza ou ausência de dados confiáveis. Nessas situações, a informação qualitativa continua tendo papel importante. No entanto, a empresa deve explicar por que a quantificação não é possível e buscar demonstrar como aquele risco poderia afetar ativos, passivos, operações, investimentos ou outras dimensões econômicas do negócio.
O debate também mostrou a importância de manter coerência entre os horizontes temporais utilizados no reporte de sustentabilidade e aqueles adotados internamente no planejamento, orçamento, avaliação de investimentos e gestão estratégica.
Reliefs e proporcionalidade não eliminam a necessidade de rigor
A aplicação dos mecanismos de transição e proporcionalidade também ocupou parte relevante da reunião. Foram discutidos os transition reliefs previstos nas normas e a diferença entre uma dispensa expressamente autorizada, uma limitação legítima decorrente da proporcionalidade e uma ausência de informação que possa representar uma lacuna de atendimento.
Um dos alertas foi para que os mecanismos de proporcionalidade não sejam confundidos com um julgamento subjetivo de que determinada informação “não será utilizada” pelo investidor. Também foi ressaltado que parte do esforço de implementação não está apenas na obtenção dos dados, mas em torná-los rastreáveis e capazes de suportar a revisão por terceiros independentes.
Arquitetura do reporte, referências cruzadas e interoperabilidade
Outra preocupação recorrente dos participantes foi a arquitetura do reporte e a forma de conectar as divulgações requeridas pelas IFRS S1 e S2 às demais informações corporativas.
Durante o encontro, Eduardo Flores destacou a possibilidade de utilização de referências cruzadas, desde que observados os requisitos das normas, como instrumento para evitar duplicações e facilitar a conexão entre as informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, as demonstrações financeiras e outros documentos corporativos. A discussão também abordou a importância da interoperabilidade com outros referenciais, aproveitando informações já produzidas pela companhia sem comprometer a integridade e a clareza das divulgações requeridas por S1 e S2.
Mais do que reproduzir informações em diferentes documentos, o desafio está em construir uma arquitetura que permita ao usuário localizar e compreender as conexões entre elas. Flores ressaltou ainda a importância da consistência ao longo do tempo: informações prospectivas divulgadas em S1 e S2 podem ainda não estar refletidas contabilmente, mas, à medida que decisões e investimentos se materializam, sua conexão com as demonstrações financeiras deve se tornar mais evidente.
Uma arquitetura de reporte bem construída deve, portanto, favorecer conectividade, rastreabilidade e compreensão, respeitando também as formas de apresentação e arquivamento estabelecidas pelos reguladores aplicáveis a cada entidade.
Controles, rastreabilidade e asseguração
A evolução dos controles internos foi outro ponto central. A discussão chamou atenção para a diferença entre processos estruturados de produção das demonstrações financeiras e processos de sustentabilidade que, em algumas organizações, ainda dependem significativamente de coletas manuais e pouco sistematizadas.
A implementação não exige que todas as empresas disponham imediatamente de sistemas totalmente automatizados. Por outro lado, informações obtidas sem procedimentos documentados, evidências e trilhas que permitam sua reexecução também não oferecem a robustez necessária. O objetivo deve ser construir processos compatíveis com a realidade da organização, mas capazes de assegurar rastreabilidade, consistência metodológica e evolução ao longo do tempo.
Nesse contexto, o Conselho deve atuar predominantemente no nível de supervisão estratégica, enquanto a administração responde pela implementação dos processos, controles e procedimentos necessários à produção das informações. Mesmo nos casos de divulgação voluntária, a opção de publicar não reduz o rigor esperado na preparação das informações.
Conectividade não significa que tudo estará nas demonstrações financeiras
A relação entre as informações de sustentabilidade e as demonstrações financeiras também foi objeto de aprofundamento.
A discussão destacou que nem todo risco ou oportunidade material identificado segundo S1 e S2 produzirá, naquele momento, reconhecimento ou mensuração contábil. Parte relevante das informações é prospectiva e pode estar relacionada, por exemplo, a investimentos planejados que ainda não atendem aos critérios para reconhecimento nas demonstrações financeiras.
Isso não significa ausência de conectividade. À medida que decisões e expectativas se materializam, espera-se consistência intertemporal e capacidade de conectar o que foi anteriormente divulgado aos efeitos posteriormente observados nas demonstrações financeiras.
Sustentabilidade precisa chegar à análise financeira
No último bloco, o encontro avançou para uma das questões mais desafiadoras da agenda: como transformar riscos e oportunidades identificados qualitativamente em premissas capazes de afetar receita, margem, CapEx, OpEx, fluxo de caixa, custo de capital e valor da empresa.
Flores ressaltou que os fundamentos utilizados não são distintos daqueles empregados na análise de outros riscos econômicos, como mercado, demanda, câmbio ou política econômica. O desafio está em compreender como determinado risco ou oportunidade de sustentabilidade afeta os fundamentos do negócio e, a partir disso, incorporá-lo às premissas utilizadas em projeções e modelos financeiros.
A sessão terminou com uma reflexão sobre a efetiva utilização dessas informações pelos investidores. Entre os pontos levantados, destacou-se que a dificuldade de incorporar determinadas informações aos modelos de análise pode estar relacionada não à ausência de interesse, mas à falta de padronização, comparabilidade e confiabilidade das informações disponíveis. O avanço da qualidade dos reportes, dos controles e da asseguração será, portanto, elemento relevante para ampliar sua utilização na tomada de decisão.
O encontro reforçou o propósito do GT Empresas Pioneiras de criar um ambiente de troca entre empresas, especialistas e demais participantes do mercado para avançar da interpretação normativa para os desafios concretos de implementação das IFRS S1 e S2.